Esse é o título de um livro. Mas não haveria melhor forma de manifestar-se diante do fim. Preparara tudo. Na verdade vinha preparando desde o momento em que veio ao mundo, e parecia saber a hora exata em que partiria.
Naquela noite estava tudo estruturado. Separou seu Château Mouton-Rothschild de 1945 do ano em que a guerra havia findado.
A França não era a mesma, mas o Au Lapin Agile continuava de pé. Passara por ele aquela tarde. Já havia visitado o lugar tantas vezes, fazia inclusive parte da história dele. Havia uma foto sua nos altos de sua juventude no corredor do local. Deu um adeus para as velhas lembranças. E enquanto se dirigia para saída e suas mãos enrugadas haviam girado a maçaneta, uma lágrima escorreu de seu rosto.
Tantos amantes, tantas canções, tantos sonhos.
Fora uma jovem puritana, se transformou numa cobiçada dançarina de cabaret e acabara como uma grande filósofa. Era quase como uma Lou-Salomé com ares de uma Simone de Beauvoir.
Deixara o passado para trás mas nunca deixara de ser uma grande menina. As convenções mantinham seu ego nas alturas. Debatia face a face com os maiores gênios da humanidade. E quando não estava certa, persuadia seus adversários com um par de pernas estonteantes.
Logo seus adversários passavam a ser seus novos amantes.
E todos na cama tinham um objetivo em comum.
Mas o tempo sempre passa, e de repente suas pernas não eram tão atrativas quanto antes. E o tempo lhe ensinou a persuadir de outra forma.
Seus adversários eram amantes de suas ideias, e não de suas pernas.
De onde tirara aquele vinho?
Neuilly-sur-Seine era um lugar bem melhor antes dos artistas começarem a frequentá-lo. Seu pequeno apartamento tinha uma vista tão bela quanto a inocência de uma criança. Até hoje se culpava por não ter tido uma. Poderia ter adotado, seira altruísta, mas não o intentava. E para quem deixaria todas aquelas lembranças?
Toda mulher sempre sonha em ter filhos. Entendera ao fim da vida o porquê disso. Se deparava com o fato de não poder repassar seus bens, suas lembranças...
Tirou o pó da velha vitrola, já era noite. As estrelas começavam a cortar o sol que se punha. Observara o pôr-do-sol todos os dias desde que se mudara para lá. Era a coisa mais preciosa daquele local, e julgava esse ser o motivo do alto valor do local.
Escrevera um testamento, tudo para os pobres!
Pobres de espírito que não admirivam a poesia, que não liam com a alma, que não viam com o coração. Ou seja, tudo para o governo.
Fora irônica, aliás os anos lecionando filosofia lhe ensinaram bem a fazer isso. Seus alunos iriam ao seu enterro, e talvez até deixassem flores no seu túmulo.
Tirou o vinil autografado por Sinatra, o maior. Nunca o abrira, mas já era hora. Ajustou a velha agulha, ouviu o atrito com o disco, que gemia como uma virgem.
Aquela voz inconfundivel gritou: That's Lifeeee.
Era essa a canção, pegou uma taça do vinho que já estava aberto sobre a mesa. Abriu voluptuosamente as janelas. Despiu-se
Colocou o vestido empoirado e vermelho. A lua parecia beijá-la. Dançava conforme a canção.
E nunca se sentira tão leve.
Fechou os olhos e por um instante as rugas desapareceram, as varizes pararam de doer. A idade nem pesava tanto.
Viu todos seus amantes naquele grande salão. Todos beijavam sua mão e convidavam para uma dança.
Não abrira mais os olhos....
Mas um dia os fechara?
Não morre quem um dia bem viveu.
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sábado, 23 de abril de 2011
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Se os fatos são contra mim, pior para os fatos!

Não é fácil....
Na verdade ela supunha que havia sido conspiração.Mas náo, e se houve, foi a do próprio destino.
Nem sempre as coisas dão certo, mas naquele dia exepcionalmente, elas deram todas erradas!
Uma sexta-feira típica de inverno londrino. Mais um dia de tablho, mais uma noite atromenatda pela insônia. Como se não fosse o suficiente se manter com cafeína, naquela manhã a lancheria que costumava comprar seu café estava fechada.
Por sorte havia levado uma porção de café solúvel a mais para tomar durante a tarde. Duas quadras do seu serviço, seu carro estranhamente estraga. Como se fosse para ajudar, começa a chover.
Hoje seria o dia da tão esperada promoção. Mas que coencidência, seu chefe resolveu viajar a negócios... Sua promoção foi adiada em uma semana.
Ainda assim conseguia rir, de si mesa, mas ainda sorria. Como poderia existir alguém tão "azarada" assim. De qualquer forma, já estava molhada, com o carro guinhchado e começara a sentir sinais de sono.
Um dia típico, com trabalhos típicos. Teria que voltar de ônibus com todos aqueles memorandos para digitar durante a noite.
Às 19 horas começa o serviço enquanto olha TV.
A dona de uma lancheria havia ganhado um prêmio milhionário e havia abandonado seu negócio. Uma loja de conveniência havia premiado o dono de um guincho por salvar a uma criança no momento em que ele guinhchava um carro próximo ao local.
O telefone toca. Não havia prestado atenção no noticiário. Na linha, seu patrão, informando-a que estava sendo afastada da empresa, e que só precisava voltar no outro dia para entregar a pilha de trabalho que havia levado para fazer em casa.
A empresa fora vendida para uma multinacional.
No jornal informam os números de outro prêmio lotérico, não prestara atenção, mas havia apostado noite passada....
Não precisava mais do emprego, estava com a vida ganha. Mas de que adianta tanto dinheiro, se estava jogando-se pela janela do apartamento...
Sorte que morava no primeiro andar!
"Se os fatos estão contra mim,pior para os fatos" (Nelson Rodrigues)
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