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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Cartas a um Desconhecido V

O Saudosista.

Olá, quanto tempo?
Bom, não queria ter passado tantos meses longe. Queria lhe abraçar mais vezes, te beijar as têmporas e antes que fôssemos embora mandar um beijo para sua mãe.
Pois é, não conheço a tua mãe. Mas dizem que ela pode fazer bolinhos de chuva incríveis.

Nunca comi bolinhos de chuva.

Quero ser direta. E não sou isso muitas vezes. Queria te dizer que antes eu não sabia, depois não tinha certeza e agora desconfio. Acho que sou insegura demais né?
Fui fundo demais. Lembra o que ele disse aquela vez que te liguei? Eu uso pra mim agora.
Tenho um amigo como ele. Sim, um novo amigo.

Não sei se tenho amigos ou extensões minhas. Quando choram, eu choro, quando riem, eu rio.

E os amores?
Você lembra daquele rapaz?
Enfim, ele me faz mais feliz do qualquer um já fez ou fará...

Não quero perdê-lo, mas encontrá-lo cada vez mais em mim.



Sou tão profunda que às vezes me esqueço de nadar e me afogo nas minhas próprias palavras.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Tudo que posso lembrar

Estranho ouvir uma música e se lembrar de um momento específico. Dia 18 de junho fará um ano. Um ano que passou rápido. Rápido demais.
Estranho ter lembrado disso agora.
Liguei na música sem querer e seguindo a mesma intuição comecei a chorar.
Sabe, eu nunca havia sentido isso por alguém antes. É um amor estranho. Como se ama poucas pessoas. Como se ama um mestre.
Complicado tentar explicar. Não li todos seus livros, não vi todas suas entrevistas, não enviei aquela carta....
Amanhã fará um ano que escrevi ela. Era pra ti.
Queria ter enviado. Minha cosciência pesaria menos.
Aliás, as lembranças fazem com que o fardo de viver seja mais leve.
Se temos lembranças, logo vivemos.
Lembro dessa música, lembro que estava ouvindo quando li.
Lembro que chorava.
Eu vivo, mas me indago, porque tu não vives mais.
Como eu disse aquela vez, e repito nesse momento:
"Não tive o prazer de te conhecer, mas sinto na sua perda a perda de um amigo, de um irmão, de um pai... De um mestre. Porque o mundo era um lugar bem melhor só porque tu estavas nele."


Sinto saudades de um estranho... Estranho sentir saudades de quem nunca se sentiu.
#LutoEterno Saramago.

sábado, 23 de abril de 2011

Um Longo Adeus

Esse é o título de um livro. Mas não haveria melhor forma de manifestar-se diante do fim. Preparara tudo. Na verdade vinha preparando desde o momento em que veio ao mundo, e parecia saber a hora exata em que partiria.
Naquela noite estava tudo estruturado. Separou seu Château Mouton-Rothschild de 1945 do ano em que a guerra havia findado.
A França não era a mesma, mas o Au Lapin Agile continuava de pé. Passara por ele aquela tarde. Já havia visitado o lugar tantas vezes, fazia inclusive parte da história dele. Havia uma foto sua nos altos de sua juventude no corredor do local. Deu um adeus para as velhas lembranças. E enquanto se dirigia para saída e suas mãos enrugadas haviam girado a maçaneta, uma lágrima escorreu de seu rosto.
Tantos amantes, tantas canções, tantos sonhos.
Fora uma jovem puritana, se transformou numa cobiçada dançarina de cabaret e acabara como uma grande filósofa. Era quase como uma Lou-Salomé com ares de uma Simone de Beauvoir.
Deixara o passado para trás mas nunca deixara de ser uma grande menina. As convenções mantinham seu ego nas alturas. Debatia face a face com os maiores gênios da humanidade. E quando não estava certa, persuadia seus adversários com um par de pernas estonteantes.
Logo seus adversários passavam a ser seus novos amantes.
E todos na cama tinham um objetivo em comum.
Mas o tempo sempre passa, e de repente suas pernas não eram tão atrativas quanto antes. E o tempo lhe ensinou a persuadir de outra forma.
Seus adversários eram amantes de suas ideias, e não de suas pernas.
De onde tirara aquele vinho?
Neuilly-sur-Seine era um lugar bem melhor antes dos artistas começarem a frequentá-lo. Seu pequeno apartamento tinha uma vista tão bela quanto a inocência de uma criança. Até hoje se culpava por não ter tido uma. Poderia ter adotado, seira altruísta, mas não o intentava. E para quem deixaria todas aquelas lembranças?
Toda mulher sempre sonha em ter filhos. Entendera ao fim da vida o porquê disso. Se deparava com o fato de não poder repassar seus bens, suas lembranças...
Tirou o pó da velha vitrola, já era noite. As estrelas começavam a cortar o sol que se punha. Observara o pôr-do-sol todos os dias desde que se mudara para lá. Era a coisa mais preciosa daquele local, e julgava esse ser o motivo do alto valor do local.
Escrevera um testamento, tudo para os pobres!
Pobres de espírito que não admirivam a poesia, que não liam com a alma, que não viam com o coração. Ou seja, tudo para o governo.
Fora irônica, aliás os anos lecionando filosofia lhe ensinaram bem a fazer isso. Seus alunos iriam ao seu enterro, e talvez até deixassem flores no seu túmulo.
Tirou o vinil autografado por Sinatra, o maior. Nunca o abrira, mas já era hora. Ajustou a velha agulha, ouviu o atrito com o disco, que gemia como uma virgem.
Aquela voz inconfundivel gritou: That's Lifeeee.
Era essa a canção, pegou uma taça do vinho que já estava aberto sobre a mesa. Abriu voluptuosamente as janelas. Despiu-se
Colocou o vestido empoirado e vermelho. A lua parecia beijá-la. Dançava conforme a canção.
E nunca se sentira tão leve.
Fechou os olhos e por um instante as rugas desapareceram, as varizes pararam de doer. A idade nem pesava tanto.
Viu todos seus amantes naquele grande salão. Todos beijavam sua mão e convidavam para uma dança.
Não abrira mais os olhos....
Mas um dia os fechara?

Não morre quem um dia bem viveu.